Afegã lésbica relata fuga do controle do Talibã

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    Em depoimento, mulher de 22 anos conta como a chegada do regime autoritário ao país interrompeu sua formação e a moveu a fugir

    A vida para a população LGBTQIA+ no Afeganistão deteriorou-se rapidamente após a ascensão do Talibã ao poder, em agosto de 2021. Quem declara é a afegã Rabia, uma mulher lésbica de 22 anos, atualmente refugiada no Paquistão. Em entrevista ao portal britânico Pink News, ela conta como arriscou a vida para escapar do casamento forçado e do regime, opressor para as mulheres e para a população sexualmente diversa.

    “Antes do Talibã nós tínhamos oportunidade de trabalhar, de estudar. Nós tínhamos oportunidades e eu era uma estudante em uma universidade”, diz a afegã. “Após a chegada do Talibã, tudo mudou. Eu não podia mais ir para a universidade ou para meu trabalho. Eu recebi uma ligação do trabalho dizendo que eu não poderia mais ir, porque tinha sido demitida. Até agora não sei o porquê.”

    Casamento à força
    Rabia conta que ela tinha apenas 15 anos quando foi forçada a casar-se com um oficial talibã. À época, o grupo não tinha o controle do país, nem direito algum de ditar regras. Ainda assim, o pai da então adolescente foi forçado a aceitar o noivado, pois o grupo disse que, se Rabia não topasse, eles iriam atrás de sua irmã mais nova. “Eu tive de fazer isso, não tive nenhuma opção”, conta a moça.

    O casamento de Rabia com o oficial talibã durou apenas seis meses. Neste período, ela contatou uma mulher que ajudava jovens mulheres a conseguir estudo e trabalho em Cabul, para onde partiu. Após morar alguns meses em um abrigo, a jovem partiu para a casa de uma família, onde percebeu sua sexualidade.

    Rabia conta que, no período em que passou na casa, acabou se envolvendo com a filha da família. “Descobri que tinha um sentimento por ela, era algo diferente. Eu tentei fazê-la descobrir e, para minha sorte, era recíproco. Então propus um relacionamento e ela aceitou.”

    Fuga
    O namoro durou até a família mudar-se para o Irâ. Após este período, Rabia, que então estava na universidade, engajou outro namoro com uma mulher. Foi quando o Talibã assumiu o controle do país. A afegã, que estava próxima de se formar, teve de interromper os estudos e fugir do país.

    Junto a uma amiga lésbica, que conheceu no antigo abrigo em Cabul, Rabia conseguiu atravessar a fronteira com o Paquistão, onde vive em um asilo. Por lá, ela ainda precisa manter sua sexualidade em segredo, já que o Paquistão também não acolhe a população LGBTQIA+. No momento, a afegã busca abrigo em países como o Reino Unido e o Canadá, onde espera recomeçar sua vida em liberdade.

    “Eu quero dar meu melhor por meu futuro porque eu sei e acredito que possa fazê-lo. Até conquistar meus sonhos, eu não quero parar.”